Lá se foi meu parafuso...
Minha esposa comprou alguns quadros para o nosso apartamento recém ocupado e escolhi um sábado à tarde para pendurá-los.
Abri a embalagem de buchas e parafusos 4,2 x 38 mm e espalhei sobre o sofá. Nosso filho, então com 10 meses, se aproximou para ver o que eu estava fazendo.
- Vai ajudar o papai, Gui? - Ele fez sinal com a cabecinha que sim - Eba, então separa as buchas e os parafusos, assim.
Eu o coloquei sentado no sofá e mostrei como fazia colocando, bucha de um lado e parafuso do outro.
Minha esposa ouviu a conversa da cozinha e veio pra sala.
- Não deixa ele por nada na boca - recomendou ela.
- Tá.
- Viu, Gui? Ajuda o papai mas não coloca nada na boca.
Medi a parede, fiz uns riscos com um lápis e posicionei um quadro para ver se ia ficar bom. Peguei a furadeira e avisei meu filho:
- Gui, o papai vai fazer um pouco de barulho, ok?
Fiz o primeiro furo, soprei o buraco para tirar o pó de dentro dele e em seguida fiz o outro.
- Gui, me dá dois parafusos e duas buchinhas.
Ele estava brincado com os parafusos. Pegou um, colocou na minha mão; pegou uma bucha e fez o mesmo; pegou outro parafuso, me deu e em seguida outra bucha.
- Isso, que menino inteligente!
Sem pensar, prendi os dois parafusos entre os lábios para ficar com as mãos livres para colocar as buchas nos furos.
Quando estava apertando com uma chave o segundo parafuso, ouvi barulho de alguém se engasgando e uma tosse atrás de mim.
Me virei para olhar e ele estava deitado de costas tentando se levantar. Desci da escada e o peguei no colo. Ele estava meio avermelhado e com os olhinhos lacrimejantes.
- O que aconteceu? - era a Márcia atrás de mim.
- Não sei, ele se engasgou com alguma coisa mas já está bem.
- Gui, você colocou alguma coisa na boca? - perguntou ela.
Silêncio.
- Filho, abre a boquinha pro papai olhar.
Ele abriu a boca e não ví nada.
- Bota a língua pra fora - pedi.
Ele obedeceu e eu gelei quando vi um filete de sangue no dorso da língua.
- Acho que ele engoliu alguma coisa. Pega ele que vou ver.
Contei as buchas e os parafusos e dei pela falta de um parafuso. Ajoelhei no chão, olhei debaixo do sofá, vasculhei entre as almofadas e nada.
- Está faltando um parafuso - eu disse. Filho você engoliu o parafusinho do papai?
Ele levantou o braço, coçou a cabeça, virou-se e abraçou a mãe.
- Vamos levar ele no pronto-socorro do Hospital Brasil.
- Vamos passar no teu pai antes, pra ele orar pro Guilherme. Eu falei pra você não deixar ele por nada na boca.
- Eu não vi.
Minutos depois estávamos na casa dos meus pais. Contamos o que tinha acontecido, ele orou e ungiu nosso filho.
Chegamos ao hospital e nos encaminharam para a pediatria. Minutos depois estávamos sentados diante de um médico, contando a história do parafuso.
- Tem certeza que ele engoliu o parafuso?
- Não, mas eu contei os parafusos e estava faltando um. E ele se engasgou também, então eu pedi pra ele pôr a língua pra fora e vi um filete de sangue na parte de trás da língua.
- Vamos tirar uma radiografia. O parafuso é grande?
- 4,2 x 38 mm.
- Ok, entreguem esse pedido para a enfermeira, e quando o exame estiver pronto eu chamo vocês.
Minha esposa acompanhou nosso filho na sala de raio X e momentos depois estavam de volta.
- Agora é aguardar. Graças a Deus ele está bem.
- Eu falei pra você não deixar ele por nada na boca, mas você nunca me escuta.
- Já falei que não vi.
Lembrei do meu gesto de prender os dois parafusos entre os lábios e me chamei de burro intimamente. Provavelmente ele me viu fazendo isso e repetiu o gesto.
- É um belo parafuso - disse o médico ao sermos chamados de volta à sala dele -, mas já está no intestino delgado, tá vendo?
Olhamos a chapa no suporte de luz e dava pra ver claramente o parafuso com a ponta virada para baixo.
- Não se preocupem. Provavelmente amanhã ou na segunda-feira ele vai expelir o parafuso. Deve doer quando ele fizer cocô, mas nada grave. Se ele se queixar de dor de barriga antes disso voltem pra cá imediatamente, ok?
Concordamos e fomos embora. Graças a Deus ele passou o restante do final de semana sem nenhuma dor e brincando normalmente.
Pendurei os dois quadros e na segunda-feira fui trabalhar. Por volta das 10h o telefone tocou e eu atendi.
- Li, o parafuso saiu. O Gui pediu pra fazer cocô e eu ouvi um barulhinho, plim, e quando olhei, o parafuso estava no fundo do vaso.
- Ele chorou? - perguntei.
- Não, nem percebeu.
- Que bom. Graças a Deus que terminou tudo bem.
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