quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Se você quer que as coisas mudem, mude você primeiro..."

A leitura dessa frase dias atrás me trouxe à lembrança uma situação que vivemos em 1982, e que gostaria de compartilhar com vocês.

A mudança para nosso apartamento financiado, depois de pagarmos aluguel por um ano e meio, despertou na minha esposa o desejo de trocar os armários da cozinha.

Contratou um marceneiro amigo nosso, explicou o que queria e me apresentou o orçamento. Embora eu tivesse um bom salário como Comprador na Siemens, aquilo não cabia no nosso bolso.

Mas ela queria os armários novos. Queria muito.

Ao chegar do trabalho um dia ela me disse:

- Vou vender Natura, para pagar o marceneiro.

Eu pensei: "Será que o cara concordou em receber em alguns anos?". Mas disse em voz alta:

- Acho legal, se você quiser, mas nossa família não é grande e creio que os nossos amigos já devem ter quem venda para eles.

- E quem falou que eu vou vender para conhecidos? - retrucou ela.

No dia seguinte, foi até uma amiga nossa Consultora da Natura e explicou seu plano, que consistia no seguinte:

Encher uma mochila de produtos Natura e vender para as garotas que trabalhavam como vendedoras nas lojas de Santo André.

Deixou nosso filho recém-nascido na mãe dela, pegou nosso Corcel I e foi para o centro da cidade.

Três dias depois ela não tinha vendido praticamente nada.

No quarto dia, ao sair cedo para o trabalho vi sobre nosso sofá um conjunto de saia e blazer, blusa de seda e, no chão, sapatos de salto alto.

Fui beijá-la na cama para sair e perguntei:

- Vai à alguma entrevista de emprego?

- Não, vou vender Natura.

No final do dia ela me ligou no trabalho:

- Li, passa aqui na minha mãe na volta. Tenho que buscar mais produtos na Bernadete e vai ficar difícil pra carregar a mochila e o Guilherme junto.

Ao chegar na minha sogra minha esposa estava contabilizando as vendas do dia. Sobre a mesa havia alguns poucos produtos e ela anotava num caderno os dados das compradoras.

Olhei as anotações por cima dos ombros dela e perguntei, surpreso:

- Nossa, você vendeu tudo isso?

- Sim, e teria vendido mais se os produtos não tivessem acabado.

Ao chegarmos na casa da Bernadete fiquei sabendo o que tinha mudado dos dias anteriores.

- As pessoas não gostam de coitadinhos - disse ela -. Eu entrava nas lojas vestida com saia jeans, camiseta, rasteirinha e as meninas me olhavam de cima em baixo. Quando eu perguntava se elas queriam comprar Natura, as respostas eram sempre: "Não, já compro de alguém", "Não, os donos da loja não permitem vendedores ambulantes aqui", e etc.

- Então eu pensei comigo: "Essas meninas me veem como uma coitadinha. Tenho que me colocar na altura delas, se quiser atenção." Então eu vesti minha melhor roupa, escolhi outras lojas mais chiques e mudei a forma de abordagem. Entrei na primeira loja, fui até uma das vendedoras e falei:

- Bom dia, me chamo Márcia Porto e sou Consultora da Natura. Estou fazendo um trabalho de divulgação da marca nas melhores lojas de Santo André e também saber qual a impressão das nossas clientes com os nossos produtos. Você gostaria de participar? Depois de saber quais produtos ela usava, de qual deles ela mais gostava, se tinha tido alguma alergia, eu disse:

- Eu estou testando uma nova forma de satisfazer nossas clientes, que é a entrega imediata dos produtos. Você não precisa escolher num catálogo e esperar pelo dia do pagamento para receber. Eu tenho os produtos aqui comigo e você já pode começar a usar. Qual dia fica melhor para você pagar?

O resultado foi que ela sozinha pagou o marceneiro com o dinheiro das vendas e se tornou a melhor vendedora que a Consultora Bernadete tinha.

Ao mudar a atitude ela deixou de lado o motivo de ter que vender Natura e fez com que as garotas se sentissem especiais. Posso imaginar as meninas pensando:

- "Nossa, a Natura se importa tanto assim com o que eu penso sobre os produtos?"

Quando nossa filha nasceu ela deixou as vendas da Natura e se dedicou integralmente ao papel de mãe.

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