"Se você quer que as coisas mudem, mude você primeiro..."
A leitura dessa frase dias atrás me trouxe à lembrança
uma situação que vivemos em 1982, e que gostaria de compartilhar com vocês.
A mudança para nosso apartamento financiado, depois
de pagarmos aluguel por um ano e meio, despertou na minha esposa o desejo de
trocar os armários da cozinha.
Contratou um marceneiro amigo nosso, explicou o que
queria e me apresentou o orçamento. Embora eu tivesse um bom salário como
Comprador na Siemens, aquilo não cabia no nosso bolso.
Mas ela queria os armários novos. Queria muito.
Ao chegar do trabalho um dia ela me disse:
- Vou vender Natura, para pagar o marceneiro.
Eu pensei: "Será que o cara concordou em receber
em alguns anos?". Mas disse em voz alta:
- Acho legal, se você quiser, mas nossa família não é
grande e creio que os nossos amigos já devem ter quem venda para eles.
- E quem falou que eu vou vender para conhecidos? -
retrucou ela.
No dia seguinte, foi até uma amiga nossa Consultora da
Natura e explicou seu plano, que consistia no seguinte:
Encher uma mochila de produtos Natura e vender para as
garotas que trabalhavam como vendedoras nas lojas de Santo André.
Deixou nosso filho recém-nascido na mãe dela, pegou
nosso Corcel I e foi para o centro da cidade.
Três dias depois ela não tinha vendido praticamente
nada.
No quarto dia, ao sair cedo para o trabalho vi sobre
nosso sofá um conjunto de saia e blazer, blusa de seda e, no chão, sapatos de salto
alto.
Fui beijá-la na cama para sair e perguntei:
- Vai à alguma entrevista de emprego?
- Não, vou vender Natura.
No final do dia ela me ligou no trabalho:
- Li, passa aqui na minha mãe na volta. Tenho que
buscar mais produtos na Bernadete e vai ficar difícil pra carregar a mochila e o
Guilherme junto.
Ao chegar na minha sogra minha esposa estava
contabilizando as vendas do dia. Sobre a mesa havia alguns poucos produtos e
ela anotava num caderno os dados das compradoras.
Olhei as anotações por cima dos ombros dela e
perguntei, surpreso:
- Nossa, você vendeu tudo isso?
- Sim, e teria vendido mais se os produtos não
tivessem acabado.
Ao chegarmos na casa da Bernadete fiquei sabendo o que tinha
mudado dos dias anteriores.
- As pessoas não gostam de coitadinhos - disse ela -.
Eu entrava nas lojas vestida com saia jeans, camiseta, rasteirinha e as meninas
me olhavam de cima em baixo. Quando eu perguntava se elas queriam comprar
Natura, as respostas eram sempre: "Não, já compro de alguém",
"Não, os donos da loja não permitem vendedores ambulantes aqui", e
etc.
- Então eu pensei comigo: "Essas meninas me veem
como uma coitadinha. Tenho que me colocar na altura delas, se quiser
atenção." Então eu vesti minha melhor roupa, escolhi outras lojas mais
chiques e mudei a forma de abordagem. Entrei na primeira loja, fui até uma das
vendedoras e falei:
- Bom dia, me chamo Márcia Porto e sou Consultora da
Natura. Estou fazendo um trabalho de divulgação da marca nas melhores lojas de
Santo André e também saber qual a impressão das nossas clientes com os nossos
produtos. Você gostaria de participar? Depois de saber quais produtos ela
usava, de qual deles ela mais gostava, se tinha tido alguma alergia, eu disse:
- Eu estou testando uma nova forma de satisfazer
nossas clientes, que é a entrega imediata dos produtos. Você não precisa
escolher num catálogo e esperar pelo dia do pagamento para receber. Eu tenho os
produtos aqui comigo e você já pode começar a usar. Qual dia fica melhor para
você pagar?
O resultado foi que ela sozinha pagou o marceneiro com
o dinheiro das vendas e se tornou a melhor vendedora que a Consultora Bernadete tinha.
Ao mudar a atitude ela deixou de lado o motivo de ter
que vender Natura e fez com que as garotas se sentissem especiais. Posso
imaginar as meninas pensando:
- "Nossa, a Natura se importa tanto assim com o
que eu penso sobre os produtos?"
Quando
nossa filha nasceu ela deixou as vendas da Natura e se dedicou integralmente ao
papel de mãe.
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