quinta-feira, 6 de agosto de 2015

No meio do caminho tinha uma Kombi tinha uma Kombi no meio do caminho.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
Minha habilidade em desenhar coisas e pessoas à mão livre despertou em meu pai o bom desejo de me ver encaminhado numa profissão. Como soldador ferramenteiro na Vokswagen ele lidava diariamente com desenhos mecânicos, e viu ali uma carreira promissora para o filhote do meio. Um dia chegou em casa com um prospecto de cursos oferecidos pela Escola Mecking, de Santo André, e falou, todo animado:

- O que você acha de aprender Desenho Mecânico, Eliseu? Você tem facilidade com desenhos e lá na empresa vejo rapazes numa sala no meio do setor desenhando peças numa prancheta. É um serviço limpo e acho que eles ganham bem.

Pulei de alegria.
No próximo sábado fomos fazer minha matrícula. O curso teve duração de um ano, e eu nunca tinha tirado notas tão boas antes. Na verdade eu tinha sido tão ruim na primeira série que repeti duas vezes o Exame de Admissão (esse exame era feito no final do quarto ano; abrangia todas as matérias e não tinha colher de chá. Só prosseguia na quinta série quem tirasse notas superiores a cinco em todas as matérias, e para não perder mais um ano meu pai me botou pra fazer o quinto ano no SESI, ao lado do Américo Brasiliense).

Ao terminar o curso, minha mãe foi falar com o Juracy, amigo dos meus irmãos mais velhos, que trabalhava como projetista numa pequena fábrica perto de casa. Disse à ele que, caso surgisse uma vaga de desenhista na empresa, se lembrasse de mim. Passados alguns meses ele apareceu lá em casa com a boa nova. Tinha uma vaga, ele havia me indicado e eu teria que fazer um teste no dia seguinte. No dia seguinte, logo cedo, fui até lá, e para minha surpresa a fábrica ficava na mesma Rua Marechal Rondon na qual meus pais moravam quando nasci.

Lá chegando, soube que iria concorrer com outro rapaz, também indicado por alguém. Nem liguei. Estava com a calma típica de quem não tem contas pra pagar. Foi colocada uma folha de papel vegetal em branco sobre um desenho bem complexo, e nossa missão era copiar com caneta nanquim o que estava embaixo. Fui o primeiro, e assim que o outro rapaz terminou, o projetista-chefe chamou o dono da empresa para julgar. Era um japonês sério, tanto quanto um japonês consegue ser sério. Nossos desenhos haviam sido postos em duas pranchetas diferentes e cobertos com papel térmico. O projetista-chefe levantou a folha que estava sobre o meu desenho; o japonês chegou perto, olhou, olhou e se afastou. Em seguida foi levantada a folha sobre o outro desenho e ele fez o mesmo. 

- Este - disse ele apontando para o meu desenho -, de quem é?

Apontaram pra mim. Soltei a respiração e dei um sorrisinho amarelo. Ele não sorriu, virou-se e saiu da sala. Eiji Fugihara era o seu nome. 

Eu amava aquele trabalho. Durante os cinco anos em que fiquei lá, acordar cedo era para mim motivo de felicidade. Tinham que apagar as luzes do escritório para me fazer desgrudar da prancheta ao fim do expediente. Até que depois de dois anos, aconteceu. Fui convidado para trabalhar num sábado, até ao meio dia. Saí da empresa, montei na minha bicicleta e fui pra casa. Meu trajeto diário era subir a Av. Queirós Filho e pedalar até minha rua, já que tanto a rua da empresa quanto da minha casa eram travessas dessa avenida, distantes 1,5 km uma da outra. Só que naquele sábado eu havia combinado com amigos pedalar após o almoço, então desviei para a Av. Valentim Magalhães para encontrá-los e combinar o horário.

Desci a avenida recém asfaltada sentido do Centre Ville livre, leve e solto, ainda com o guarda-pó azul celeste que usava no trabalho. De longe avistei um Kombi que subia em sentido contrário. Ao me aproximar da rua onde hoje tem um posto de gasolina na esquina, vi a Kombi virar à esquerda na minha direção. Com medo de ir para o meio da avenida e ser atropelado por outro carro, virei à direita, na esperança de que o motorista brecasse. Pois o infeliz continuou andando, e quando tentei brecar já era tarde demais. A última coisa de que me lembro foi da cara do motorista. Um japonês sorridente debaixo de um chapéu de palha. Só fui acordar de novo na segunda-feira cedo, num quarto do Hospital Sociedade Portuguesa de Beneficência, na Av. Portugal.

Minha mãe estava sobre a laje da nossa casa, estendendo roupas no varal quando ouviu um estrondo. Ao olhar para a avenida, viu uma Kombi parada, algumas pessoas correndo e uma coisa azul celeste estendida no meio do mato. Quando o japonês abriu as portas para me botarem dentro da Kombi, ela me reconheceu e sofreu um desmaio. Sorte não estar próxima da escada. A bicicleta bateu a roda dianteira próximo do farol frontal da Kombi e entortou o guidão para a esquerda. Como eu estava começando a voar sobre ele, a alavanca formada com o guidão e meu pé esquerdo no pedal provocou fratura exposta do fêmur, bati o rosto na calha sobre o para-brisa e fui aterrissar de costas, desacordado no meio do mato.

Ao acordar na segunda-feira, tentei reconhecer onde estava. Me achei deitado numa cama junto da parede do quarto e com outro paciente na cama ao lado, me observando. 

- Bom dia! - ele disse sorrindo. 

Eu respondi e ele continuou.

- Tua mãe esteve aqui ontem e ficou preocupada, com medo de que você tivesse tido um traumatismo craniano. Mas o médico fez algumas perguntas e você respondeu todas, então ela foi embora mais tranquila.

Fiquei olhando pra ele sem entender bulhufas, já que minha última conversa tinha sido no sábado cedo na empresa. 

Notei uma coisa no meu rosto e apalpei. Tinha um curativo da testa até a orelha esquerda. Olhei pra baixo e vi minha perna esquerda suspensa sobre um suporte. Haviam furado meu fêmur acima do joelho e enfiado ali uma haste de metal. Das pontas saía uma espécie de U e na base dele tinham amarrado um barbante ou coisa parecida, que passava sobre uma carretilha e caía atrás da cama. Soube depois que ali estavam pendurados sacos de areia. Como o fêmur partiu em dois e furou a coxa, a musculatura contraiu-se, encurtando a perna. A função da estrovenga era esticar os músculos de volta até as pontas do osso se afastarem uma da outra, para então emendarem de novo. Quando olhei de novo para o meu parceiro de quarto, a expressão dele parecia dizer: 

 - "Cara, você tá ferrado, literalmente."

Fiquei com aquela coisa 30 dias. De tempos em tempos apareciam um enfermeiro e um técnico de radiologia empurrando uma máquina de Raios-X portátil quarto adentro. Faziam a chapa e iam embora. Quando o cirurgião ortopedista julgou que as pontas do osso tinham espaçamento suficiente, marcaram a cirurgia. A sala de cirurgia parecia uma funilaria. O médico, um boliviano, fez no osso uma sequencia de furos, próximo do quadril até quase o joelho. Encaixou uma placa de platina nele e meteu um monte de parafusos para fixá-la. Costurou tudo e me mandou de volta para o quarto. Quinze dias depois me deram alta e fui pra casa, engessado da cintura até o pé esquerdo e até a coxa direita. Tinha um pedaço de pau no meio, separando as pernas. Uma múmia teria uma aparência melhor.

Na primeira noite em casa minha mãe fez a sopa que mais gosto: macarrão ave maria, carne e batatas. No terceiro prato, parecia que ia explodir. Pedi uma faca de serrinha pra minha mãe e abri um V no gesso da barriga. Quase chorei de alegria quando a barriga saltou pra fora. Meus amigos da escola me levavam as matérias em casa. Ali mesmo fazia as provas e no fim do ano, seis meses depois do acidente, a diretora da escola, Dona Carmem, teve a bondade de me dar o diploma do segundo grau. Voltei para a empresa e fiquei por mais três anos. Quando pedi a conta, o japonês sério ficou triste. De verdade.



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