sexta-feira, 31 de julho de 2015

A vingança do feijão jalo.

"O feijão jalo tem grãos ligeiramente alongados e uma cor entre o bege e o amarelo, com umbigo arroxeado. Forma um caldo mais denso e com coloração avermelhada. Mais consumido em Minas Gerais e na região central, vai à mesa cozido e temperado, produzindo tutus, virados, sopas ou saladas.

O feijão jalo é ótima fonte de proteínas, rico em fibras e ferro". (fonte: www.camil.com.br)


A descrição acima trata daquele que foi meu alimento preferido até uma fatídica noite de verão. Todos nós temos inclinação por algum tipo de comida, e no caso do feijão, meus pais não trocavam o feijão jalo por nenhum outro, salvo o preto da feijoada. Meu pai comprava toucinho e o punha num defumador que ele construiu sobre a laje da nossa casa, e couro de porco. Esses eram os ingredientes que minha mãe cozinhava junto com o feijão.

Eu, então com 4 ou 5 anos, me fartava de comer aquela delícia, puro, sem arroz. Vez por outra admitia um pouco de farinha de rosca na mistura, com a qual eu construía pequenos tijolos antes de mandá-lo pro papo. Pouco me importava se haveria mistura ou não; aquilo me bastava. Meus pais, por certo, deviam se admirar da minha preferência, e se isso os incomodava, nunca disseram.

Numa bela noite, como de costume, enchi a pança com feijão jalo, courinho de porco e farinha de rosca. Comi tanto que, meio entristecido e pesadão, fui para o nosso quarto e me deitei na parte inferior de um dos beliches. Minha intenção era tirar uma boa soneca e mais tarde, acordar para brincar com meus irmãos, já que a janta em casa se servia por volta das 17:30h.

Passados alguns minutos que estava no quarto, meu irmão Eliézer gritou: 

- Manhê, o Eliseu caiu da cama! 

Minha mãe respondeu da cozinha, onde lavava a louça: 

- Ué, coloca ele de volta! 

Meu irmão me botou de volta na cama e foi continuar a brincadeira com o Cilas. Passados mais alguns minutos, de novo meu irmão: 

- Manhê, ele caiu de novo!

Toda mãe sabe que um filho cair duas vezes seguidas da cama, dormindo, não é normal. Parou o que estava fazendo e foi até o quarto onde eu estava. De lá, ela gritou:

- Nenê, corre aqui! 

Nenê, que vem a ser meu pai, foi até lá ver o que estava acontecendo.

Meu pai chegou, me pegou no colo, olhou meu estado e disse: 

- Vai orar à Deus, Tereza. Vou correr até a farmácia; ele está tendo uma congestão!.

Eu estava todo mole, gelado e sem cor. Meus dentes rangiam e a boca travou. Meu pai chamou meu irmão Cilas e saiu correndo escada abaixo comigo no colo.

Congestão alimentar é um distúrbio provocado pela interrupção da digestão, quando o alimento ainda está dentro do estômago. Após nos alimentarmos, o fluxo sanguíneo ao redor do estômago aumenta, e é quando os nutrientes são retirados dos alimentos e levados para as células. Como comi demais e fui deitar, algo de errado nesse processo provocou o mal estar, que evoluiu para algo mais grave. Caso eu não tivesse caído as duas vezes, provavelmente teria morrido sufocado.

Morávamos no fim da Rua Chambré, próximo da Av. Valentim Magalhães. Em 1964 essa avenida era um trilho no meio do mato, e subindo nossa rua chegava-se na Av. Queirós Filho, outro trilho no meio do mato. Como todas as ruas eram de terra, os ônibus para o centro da cidade tinham o ponto final no largo da Vila Humaitá. Era ali onde ficava a farmácia mais próxima, distante quase 1 km da nossa casa. Meu pai corria na frente comigo no colo, com meu irmão Cilas correndo atrás. Na pressa, perdeu as chinelas havaianas e chegou na farmácia descalço, todo suado e quase sem voz.

- Meu filho está passando mal! 

O farmacêutico olhou pra mim e disse:

- Sinto muito, mas não posso por a mão no teu filho. Isso é caso para emergência de hospital. Corra pra lá. Tem um ponto de táxi na outra esquina.

Meu pai saiu da farmácia desanimado e perdido. Na pressa de chegar não se lembrou de pegar documentos, e estava sem dinheiro para procurar por um táxi. Ficou um tempo olhando o vazio e por fim tomou uma decisão.

- Tua mãe ficou orando à Deus em casa. - disse ele para o meu irmão - Venha, vamos voltar. 

Mal tinham dado uns poucos passos, minha boca se abriu e vomitei feijão jalo, courinho de porco e farinha de rosca na roupa dele. Acho que meu irmão nunca viu antes e nem depois alguém tão feliz por tomar um banho dessa mistura. Meu pai começou a falar comigo carinhosamente enquanto andava, e eu só gemia baixinho. Pouco antes de chegar em casa eu já estava mais firme no colo e observava o caminho, sem entender nada.

Minha mãe esperava aflita no alto da escada, e mal chegamos ela perguntou se o farmacêutico tinha conseguido alguma coisa. Meu pai explicou toda a história e mostrou a roupa toda suja de vômito. Ele disse:

- Deus já ouviu tua oração. Ele botou pra fora o que estava fazendo mal.

Minha mãe me tomou do colo dele e me colocou sentado sobre a mesa da cozinha. Enquanto brincava comigo, meu pai foi tomar banho e trocar de roupa. Minha mãe, vendo meu braço direito caído como um trapo ao longo do corpo, começou a chorar e foi orar à Deus de novo, ajoelhada ao lado da mesa. Passado um tempo, eu olhei na direção de onde hoje é o Centre Ville e apontei para umas luzes que se moviam.

A experiência trágica deixou um pequeno trauma. Até os 13 anos eu só comia arroz, tendo perdido completamente a amizade com o feijão jalo e outros da sua espécie. Apesar da insistência dos meus pais, feijão me lembrava algo muito ruim, e de nada adiantaram as explicações sobre comer demais e ir dormir. O evento trágico em ensinou a não deixar meus filhos dormirem logo após as refeições. 

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