segunda-feira, 27 de julho de 2015

29 anos...

De pé, ao microfone, diante de uma pequena multidão ela contava sua história. 

Naquele culto a Deus noturno ficamos sabendo como uma menina, completados treze anos, abandonou sonhos e ilusões próprios da idade para seguir um caminho conhecido apenas por almas providas de fé. Para os pais, apenas um capricho passageiro de menina, típico da curiosidade inocente. 

De fato, como alguém em sã consciência poderia acreditar numa renúncia tão completa e aparentemente sem volta, visto que meninas nessa idade estão aproveitando a adolescência para descobrir os encantamentos do mundo?
"Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me". (Mateus 16:24)

Essa frase dita por Jesus aos seus discípulos contém uma opção, duas condições e uma ordem, sendo que grande parte daqueles que se dizem seus seguidores só fica com a opção. É compreensível, afinal, renunciar-se a si mesmo significa abrir mão dos nossos próprios desejos em favor de alguém ou de um propósito, logo, nossa vida passa a ser dirigida e guiada por outrem. E carregar a cruz significa passar por sofrimentos e privações, coisas das quais todo ser humano quer distância.
- Há muito tempo eu procurava por esse caminho - dizia ela. 

Na sua inocência julgava que aqueles que o trilhavam moravam em outros países. E numa convicção incomum para a idade, dizia:

- Tinha certeza de que se um dia eu viesse a encontrá-lo nunca mais me afastaria dele.
Eu, que o tinha encontrado ao nascer, chorava agradecido pela minha imensa sorte. Quando ela terminou e se dirigiu ao seu lugar passando por mim, o pensamento que tive então ecoa até hoje dentro da minha cabeça:

- "Deus, como ela é linda"!
Daquele dia em diante passei a observá-la em segredo. Sabia que era bem mais nova que eu e de uma beleza que leva um homem de bom senso a olhar-se no espelho e suspirar desanimado: é muita areia para o meu caminhãozinho ano 59. Um dia, participando de uma excursão, uma das suas amigas encontrou um livro de hinos e gritou dentro do ônibus:

- Quem é Márcia Bernardo de Oliveira?

Ah, bons tempos aqueles no qual tínhamos um exemplar da lista de assinantes em casa. Como sabia a cidade na qual ela morava, vasculhei os sobrenomes Bernardo de Oliveira e dei com um 416-2227 que me pareceu bastante promissor, caso um dia tivesse coragem de ligar para ela.

Os meses se passaram; ela sempre presente nos círculos de amigos e eu, discretíssimo como um mordomo inglês, esperando que ela notasse a minha existência.
Uma amiga em comum nos aproximou e eu pude comprovar que nem sempre a beleza numa mulher precisa vir acompanhada de afetação esnobe. Tudo nela parecia dizer “oi, posso ser tua amiga”? Passei a acompanhá-las até o ponto de ônibus ao término dos cultos, praticando o que tenho de melhor: saber ouvir.
Voltando de outra excursão um vizinho inconveniente forçou-a a mudar-se de lugar, e como a poltrona ao meu lado estava vazia, ela perguntou:

- Eliseu, posso me sentar com você? 

Quando ela se sentou e fez um comentário explicando a razão da mudança de lugar, temi que ao responder ela visse a ponta do meu coração batendo no céu da boca. Ao chegar ao nosso destino ela se levantou e disse:

- Gostei de conversar com você.

Eu, sem pensar nas consequências respondi mais que depressa:

- Sabe, eu tenho o teu telefone...

Ela olhou para trás, com os olhos esverdeados devido à lâmpada de vapor de mercúrio da rua, e disse:

- Então liga pra mim.
Passávamos horas ao telefone. Como disse antes, saber ouvir é o que eu tenho de melhor. O tempo foi passando e acabei por descobrir em mim outra qualidade: paciência. Sabia que ela não sentia por mim nada além de amizade, portanto, jamais pensei em demonstrar o que sentia por ela (apesar que mulher tem uma sensibilidade incrível para perceber essas coisas). Então me tornei apenas seu melhor amigo, o que para mim já era algo parecido com o Paraíso. 

E assim se passaram quase dois anos. Foram meses carregados de apreensões para mim, pois fiquei sabendo pela nossa amiga em comum que ela nutria interesse por um dos nossos amigos, e caso viessem a namorar seria o fim das longas conversas por telefone e do meu sonho de um dia, quem sabe, me casar com ela.

Como nossa amizade era muito grande ela não viu nada demais em trocar confidências comigo sobre o interesse que nutria pelo rapaz; e meu amor por ela também era grande o suficiente para não me permitir sentir ciúme e desencorajar o namoro, pelo contrário. Como o Pacey Witter, da séria americana Dawson's Creek, eu tentava (confesso que sem muito esforço) encoraja-los a começar o namoro.

Fui ensinado desde criança que Deus tem um plano na vida de cada um, e embora Ele nos tenha dado o direito ao livre arbítrio, ainda assim estamos sujeitos a Sua vontade. O que for permissão Dele, cabe a nós fazermos nossas próprias escolhas e arcar com as consequências, sejam elas boas ou más. 

Já a Sua vontade é imutável. A diferença entre um coisa e outra está na história de Saul e Davi. Saul foi o primeiro rei de Israel por permissão de Deus sobre a escolha do povo, já Davi foi a Sua vontade, sobre a Sua própria escolha.

Embora ambos se gostassem, e muito, o namoro nunca começou, para minha alegria.
Até que um fato inesperado veio abalar nossas conversas ao telefone. Uma das suas amigas mais velha confidenciou que tinha uma queda por mim, e ela, achando que seria um obstáculo às pretensões da amiga, me disse um dia:

- Sabe, a fulana me disse que gosta de você, e como somos apenas bons amigos, talvez seja melhor nos afastarmos por um tempo. Pode ser que você venha a gostar dela também e eu seria um obstáculo.

De nada adiantou meu protesto indignado e inconformado. Ela sempre se mostrou uma pessoa incapaz de magoar alguém, mesmo que para isso tivesse que perder algo que lhe fosse caro.
O afastamento teve o efeito contrário ao pretendido por ambas. Ao invés de me interessar pela amiga, meu amor por ela, que já era grande, ficou maior. Minhas noites nunca mais foram as mesmas. Ficava ao lado do telefone até tarde da noite esperando por uma ligação que nunca chegava. Às vezes me sentia um tolo por não ter sido mais corajoso e ter me declarado enquanto estávamos tão próximos.
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. Salomão. 

Era o que me restava, esperar pelo tempo determinado por Deus. Um belo dia, já no começo da noite, toca o telefone. Ao atender, aquela voz doce que me dava tanta alegria falou do outro lado:

- Eliseu, você sabe construir gráficos? Estou com um trabalho para entregar e já quase rasguei a folha de tanto apagar. Pode me ajudar?

- Sei, sim, Márcia. Você tem os dados? Me diz quais são e a gente faz isso juntos.

- Não, melhor eu ir até aí.

- Oi? Como assim, vir aqui? Não seria melhor eu ir até aí?

- Não, já estou saindo, são só dois ônibus. Chego rapidinho.
Desci a rua de casa até a avenida por onde o ônibus iria passar para esperá-la no ponto. Meus pensamentos estavam num turbilhão.

- "Não entendo - eu pensava -, faz quase um mês que não nos falamos e de repente ela pega dois ônibus pra vir em casa por causa de um gráfico!?"

Quase quarenta minutos depois a vi em pé na porta do próximo ônibus que chegava. Eu disse assim que ela desembarcou:

- Nossa, esse seu trabalho deve ser muito importante mesmo pra te fazer pegar dois ônibus a essa hora.

Chegamos em casa e pedi para ver o tal gráfico. Todo mundo sabe que um gráfico se constrói com dados no eixo x e no eixo y, e por mais que eu revirasse o papel só conseguia informações para um eixo. Eu disse:

- Márcia, acho que estão faltando dados, por isso você não conseguiu. Cadê o resto das informações? 

Ela, que estava conversando alegremente com a minha mãe, respondeu:

- Xi, acho que esqueci de copiar alguma coisa da lousa. Deixa pra lá, amanhã na aula eu vejo com a professora o que falta e faço lá.

Fiquei observando ela conversar com a minha mãe confuso e abestalhado. Como alguém pega dois ônibus no começo da noite para resolver uma coisa importante, que deixa de ser importante ao chegar no destino? 
Uma hora depois voltávamos para a casa dela no carro do meu pai. Fiz o caminho mais longo para demorar o maior tempo possível, só para poder ouvi-la contar as novidades. Parei o carro em frente ao seu portão e desliguei o motor. Passado algum tempo ela disse, corando:

- Nunca imaginei que ia sentir tanta falta de conversar com você...

Existem momentos na vida que, ou você toma uma atitude e faz o que precisa ser feito ou deixa passar, para se arrepender amargamente depois. E aquele momento não me podia escapar. Num ímpeto que hoje me parece coisa de maluco passei o braço direito por trás do seu pescoço e a beijei na boca. Para quem dava seu primeiro beijo na vida numa garota até que não me saí tão mal, eu acho. Ao me afastar ela disse:

- É, acho que estávamos namorando. 

Eu perguntei:

- E você quer continuar?

Ela respondeu:

- Se Deus quiser, eu também quero.

Pois não é que Deus quis?
Mais tarde ela me disse que depois de desligar o telefone foi procurar o tal gráfico. Não encontrava a folha em lugar nenhum, e de repente começou a chorar. 
Surpresa, pensou: 

- “Por que estou chorando? Por que sinto tanta falta do Eliseu assim”?
Acabamos de completar 29 anos de casados. Temos um casal de filhos lindos e maravilhosos, e às vezes me pergunto que merecimento eu tenho para Deus fazer de mim um homem tão feliz. De uns tempos para cá sinto que me apaixonei de novo, e com mais intensidade. Pela mesma garota de 32 anos atrás...

Uma boa maneira de ter uma amiga pelo resto da vida é casando com ela.


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