29 anos...
De pé, ao microfone, diante de uma pequena multidão ela contava sua história.
Naquele culto a Deus noturno ficamos sabendo como uma
menina, completados treze anos, abandonou sonhos e ilusões próprios da idade para
seguir um caminho conhecido apenas por almas providas de fé. Para os pais, apenas
um capricho passageiro de menina, típico da curiosidade inocente.
De fato, como
alguém em sã consciência poderia acreditar numa renúncia tão completa e
aparentemente sem volta, visto que meninas nessa idade estão aproveitando a adolescência para descobrir os encantamentos do mundo?
"Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si
mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me". (Mateus 16:24)
Essa frase dita por Jesus aos seus
discípulos contém uma opção, duas condições e uma ordem, sendo que grande parte
daqueles que se dizem seus seguidores só fica com a opção. É compreensível,
afinal, renunciar-se a si mesmo significa abrir mão dos nossos próprios desejos em
favor de alguém ou de um propósito, logo, nossa vida passa a ser dirigida e
guiada por outrem. E carregar a cruz significa passar por sofrimentos e privações,
coisas das quais todo ser humano quer distância.
- Há muito tempo eu procurava por esse caminho - dizia ela.
Na sua inocência julgava que aqueles que o trilhavam moravam em outros
países. E numa convicção incomum para a idade, dizia:
- Tinha certeza de que se
um dia eu viesse a encontrá-lo nunca mais me afastaria dele.
Eu, que o tinha encontrado ao nascer, chorava agradecido
pela minha imensa sorte. Quando ela terminou e se dirigiu ao seu lugar passando por mim, o
pensamento que tive então ecoa até hoje dentro da minha cabeça:
- "Deus, como ela
é linda"!
Daquele dia em diante passei a observá-la em segredo.
Sabia que era bem mais nova que eu e de uma beleza que leva um homem de bom
senso a olhar-se no espelho e suspirar desanimado: é muita areia para o meu
caminhãozinho ano 59. Um dia, participando de uma excursão, uma das suas amigas
encontrou um livro de hinos e gritou dentro do ônibus:
- Quem é Márcia Bernardo
de Oliveira?
Ah, bons tempos aqueles no qual tínhamos um exemplar
da lista de assinantes em casa. Como sabia a cidade na qual ela morava,
vasculhei os sobrenomes Bernardo de Oliveira e dei com um 416-2227 que me pareceu
bastante promissor, caso um dia tivesse coragem de ligar para ela.
Os meses se passaram; ela sempre presente nos círculos de
amigos e eu, discretíssimo como um mordomo inglês, esperando que ela notasse a
minha existência.
Uma amiga em comum nos aproximou e eu pude comprovar que nem sempre a beleza numa mulher precisa vir acompanhada de afetação
esnobe. Tudo nela parecia dizer “oi, posso ser tua amiga”? Passei a acompanhá-las
até o ponto de ônibus ao término dos cultos, praticando o que tenho de melhor:
saber ouvir.
Voltando de outra excursão um vizinho inconveniente
forçou-a a mudar-se de lugar, e como a poltrona ao meu lado estava vazia, ela
perguntou:
- Eliseu, posso me sentar com você?
Quando ela se sentou e fez um comentário
explicando a razão da mudança de lugar, temi que ao responder ela visse a ponta
do meu coração batendo no céu da boca. Ao chegar ao nosso destino ela se
levantou e disse:
- Gostei de conversar com você.
Eu, sem pensar nas
consequências respondi mais que depressa:
- Sabe, eu tenho o teu telefone...
Ela
olhou para trás, com os olhos esverdeados devido à lâmpada de vapor de mercúrio
da rua, e disse:
- Então liga pra mim.
Passávamos horas ao telefone. Como disse antes, saber ouvir é o que eu tenho de melhor. O tempo foi passando e acabei
por descobrir em mim outra qualidade: paciência. Sabia que
ela não sentia por mim nada além de amizade, portanto, jamais pensei em
demonstrar o que sentia por ela (apesar que mulher tem uma sensibilidade
incrível para perceber essas coisas). Então me tornei apenas seu melhor amigo,
o que para mim já era algo parecido com o Paraíso.
E assim se passaram quase dois
anos. Foram meses carregados de apreensões para mim, pois fiquei sabendo pela nossa amiga em comum que ela nutria interesse por um dos nossos amigos, e caso viessem a namorar seria o fim das longas conversas por telefone e do meu sonho de um dia, quem sabe, me casar com ela.
Como nossa amizade era muito grande ela não viu nada demais em trocar confidências comigo sobre o interesse que nutria pelo rapaz; e meu amor por ela também era grande o suficiente para não me permitir sentir ciúme e desencorajar o namoro, pelo contrário. Como o Pacey Witter, da séria americana Dawson's Creek, eu tentava (confesso que sem muito esforço) encoraja-los a começar o namoro.
Fui ensinado desde criança que Deus tem um plano na vida de cada um, e embora Ele nos tenha dado o direito ao livre arbítrio, ainda assim estamos sujeitos a Sua vontade. O que for permissão Dele, cabe a nós fazermos nossas próprias escolhas e arcar com as consequências, sejam elas boas ou más.
Já a Sua vontade é imutável. A diferença entre um coisa e outra está na história de Saul e Davi. Saul foi o primeiro rei de Israel por permissão de Deus sobre a escolha do povo, já Davi foi a Sua vontade, sobre a Sua própria escolha.
Embora ambos se gostassem, e muito, o namoro nunca começou, para minha alegria.
Até que um fato inesperado veio abalar nossas conversas
ao telefone. Uma das suas amigas mais velha confidenciou que tinha uma queda
por mim, e ela, achando que seria um obstáculo às pretensões da amiga, me disse
um dia:
- Sabe, a fulana me disse que gosta de você, e como somos apenas bons
amigos, talvez seja melhor nos afastarmos por um tempo. Pode ser que você venha
a gostar dela também e eu seria um obstáculo.
De nada adiantou meu protesto
indignado e inconformado. Ela sempre se mostrou uma pessoa incapaz de magoar
alguém, mesmo que para isso tivesse que perder algo que lhe fosse caro.
O afastamento teve o efeito contrário ao pretendido
por ambas. Ao invés de me interessar pela amiga, meu amor por ela, que já era
grande, ficou maior. Minhas noites nunca mais foram as mesmas. Ficava ao lado
do telefone até tarde da noite esperando por uma ligação que nunca chegava. Às
vezes me sentia um tolo por não ter sido mais corajoso e ter me declarado
enquanto estávamos tão próximos.
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para
todo o propósito debaixo do céu”. Salomão.
Era o que me restava, esperar pelo tempo determinado por Deus.
Um belo dia, já no começo da noite, toca o telefone. Ao atender, aquela voz
doce que me dava tanta alegria falou do outro lado:
- Eliseu,
você sabe construir gráficos? Estou com um trabalho para entregar e já quase
rasguei a folha de tanto apagar. Pode me ajudar?
- Sei, sim, Márcia.
Você tem os dados? Me diz quais são e a gente faz isso juntos.
- Não, melhor
eu ir até aí.
- Oi? Como assim, vir aqui? Não seria melhor eu ir até aí?
- Não, já estou saindo, são só dois ônibus. Chego rapidinho.
Desci a rua de casa até a avenida por onde o ônibus iria
passar para esperá-la no ponto. Meus pensamentos estavam num turbilhão.
- "Não
entendo - eu pensava -, faz quase um mês que não nos falamos e de repente ela
pega dois ônibus pra vir em casa por causa de um gráfico!?"
Quase quarenta
minutos depois a vi em pé na porta do próximo ônibus que chegava. Eu disse assim que ela desembarcou:
- Nossa, esse seu trabalho deve ser muito importante mesmo pra te fazer pegar dois
ônibus a essa hora.
Chegamos em casa e pedi para ver o tal gráfico. Todo mundo
sabe que um gráfico se constrói com dados no eixo x e no eixo y, e por mais que
eu revirasse o papel só conseguia informações para um eixo. Eu disse:
- Márcia,
acho que estão faltando dados, por isso você não conseguiu. Cadê o resto das
informações?
Ela, que estava conversando alegremente com a minha mãe, respondeu:
- Xi, acho que esqueci de copiar alguma coisa da lousa. Deixa pra lá, amanhã na aula eu
vejo com a professora o que falta e faço lá.
Fiquei observando ela conversar com a minha mãe confuso e abestalhado. Como alguém pega dois ônibus no começo da noite para resolver uma coisa importante, que deixa de ser importante ao chegar no destino?
Uma hora depois voltávamos para a casa dela no carro
do meu pai. Fiz o caminho mais longo para demorar o maior
tempo possível, só para poder ouvi-la contar as novidades. Parei o carro em frente ao seu portão e desliguei o motor.
Passado algum tempo ela disse, corando:
- Nunca imaginei que ia sentir tanta
falta de conversar com você...
Existem momentos na vida que, ou você toma uma
atitude e faz o que precisa ser feito ou deixa passar, para se arrepender
amargamente depois. E aquele momento não me podia escapar. Num ímpeto que hoje me parece coisa de maluco passei o braço
direito por trás do seu pescoço e a beijei na boca. Para quem
dava seu primeiro beijo na vida numa garota até que não me saí tão mal, eu acho. Ao me
afastar ela disse:
- É, acho que estávamos namorando.
Eu perguntei:
- E você
quer continuar?
Ela respondeu:
- Se Deus quiser, eu também quero.
Pois não é
que Deus quis?
Mais tarde ela me disse que depois de desligar o
telefone foi procurar o tal gráfico. Não encontrava a folha em lugar nenhum, e
de repente começou a chorar.
Surpresa, pensou:
- “Por que estou chorando? Por que
sinto tanta falta do Eliseu assim”?
Acabamos de completar 29 anos de casados. Temos um
casal de filhos lindos e maravilhosos, e às vezes me pergunto que merecimento
eu tenho para Deus fazer de mim um homem tão feliz. De uns tempos para cá sinto
que me apaixonei de novo, e com mais intensidade. Pela mesma garota de 32 anos
atrás...
Uma boa maneira de ter uma amiga pelo resto da vida
é casando com ela.
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