quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tragam seus boletins, crianças!

O pior dia do mês durante a minha vida escolar, do primeiro ao quarto ano primário, era aquele no qual tínhamos que levar os boletins para casa e trazê-los assinado pelo pai ou responsável no dia seguinte. A cerimônia de assinatura obedecia sempre ao mesmo ritual: meu pai permanecia sentado à mesa, após o jantar, botava a cinta dobrada sobre ela ao alcance da mão direita, chamava os três filhos e pedia os respectivos boletins. Enquanto minha mãe se distraía lavando a louça, ele estudava atentamente as notas de cada matéria, antes de assinar num espaço que tinha na frente delas. A essa altura eu já estava chorando.
Minha esposa chega em casa após um dia de trabalho e é capaz de relatar cada palavra que ouviu ou falou. Fico olhando para ela, prestando atenção e me perguntando como ela consegue gravar aquilo tudo na mente. Aqui na empresa, sempre que participo de uma reunião, tenho que anotar um resumo depois, e se me pedirem para fazer um relato do que cada um disse, é perda de tempo. O mesmo ocorre com leituras e discursos. Minha mente simplesmente não consegue reter as coisas nos seus detalhes. Na infância já era assim, e depois que atropelei uma Kombi com minha bicicleta e fiquei dois dias desacordado num hospital, piorou. 
Fiz esse pequeno relato para que não pensem que eu era um garoto burro. Existem crianças inteligentes e crianças esforçadas, e eu pertencia ao segundo grupo. Ao final de cada ano letivo as crianças pediam ao Papai do Céu bicicletas, carrinhos, bonecas, etc. Eu pedia a Ele que tivesse a bondade de abrir a minha mente, só para apanhar menos no ano seguinte.
Voltemos à cerimônia de assinatura de boletins.

Após meu pai assinar os três e passar um breve sermão sobre as consequências que a vida reserva para quem não leva os estudos a sério, levantava-se, apanhava a cinta e chamava o primeiro infeliz que tinha tido o azar de trazer notas vermelhas. Prendia-lhe a cabeça entre as pernas e aplicava com muito gosto três ou quatro cintadas, tomando o cuidado para não acertar um ovinho.
Num determinado mês eu decidi que não iria apanhar. Minha estratégia foi bastante simples: como eu tinha copiado quase a metade do livro A Ilha do Tesouro para melhorar a caligrafia, treinei durante vários dias em como desenhar a assinatura do meu pai no boletim com uma letra caprichada. Quando concluí que estava satisfatória, fiquei aguardando o final do mês. No dia de sempre, lá vem a diretora da escola, Dona Carmem, trazer os ditos cujos.
Só para fazer uma comparação com os dias atuais, sempre que ela entrava na sala, todos se levantavam, e só voltávamos a sentar quando ela ia embora.
A Dona Terezinha chamou meu nome e, com a carinha triste de sempre, me estendeu a "coisa colorida". Peguei, devolvi a ela um sorrisinho amarelo e fui sentar. Com o coração aos pulos, fiquei um tempo analisando a assinatura do meu pai nos meses anteriores. 

- "Que droga" - pensei -, "são muito iguais". 

Escondi o boletim no meio de um livro e fui para casa.
Terminado o jantar, deu-se início ao ritual. A única coisa diferente era a de que eu não estava chorando. Se isso foi motivo de estranheza por parte do meu pai, ele não manifestou. O Cilas e o Eliézer apresentaram seus respectivos boletins, e eu, muito solícito, falei:

- Pai, a professora não entregou o meu, não sei porquê. 

Ele me fitou por cima dos óculos e disse:

- Só o teu?

Eu não tinha ensaiado as respostas, então demorei um pouco para dizer: 

- Não sei, acho que sim.

Meus irmãos se safaram da surra, por não terem trazido notas vermelhas, e eu, me achando muito esperto fui brincar com eles.
Eu acredito em predestinação. Acredito que Deus, que conhece nosso futuro, nos livra de certas coisas que nos traria algum grande prejuízo durante a vida. Ele deve ter concluído: “Esse menino vai fazer algo muito errado, e se eu deixar, um erro hoje pode virar crimes amanhã”. 
De qualquer forma, como eu não sabia dos planos Dele, fui para a escola no dia seguinte todo feliz. Na hora de devolver os boletins, aleguei esquecimento, prometendo levar no dia seguinte. Durante o recreio, tirei o boletim do meio do livro e falsifiquei a assinatura do meu pai na frente das notas do mês.
Por incrível que pareça, não é que no mês seguinte eu tirei tudo azul? Até a Dona Terezinha estranhou, mas ficou feliz em me dar os parabéns. Minha alegria foi tanta que me esqueci da história da falsificação do mês anterior. Como de costume, após o jantar deu-se início ao ritual traga-seu-boletim-e-ganhe-uma-surra. Eu não me cabia de alegria; pela primeira vez naquele ano eu não ia apanhar. Entreguei o boletim ao meu pai e falei, alegrinho que só eu.

- Olha, pai. Tirei tudo azul! 

Ele disse: 

- Ô, filho. Deus abençoe, continue assim.

Quando foi assinar na frente das notas, parou, olhou pra mim e disse:

- Ué, Eliseu. Você não trouxe o boletim no mês passado, então como foi que eu assinei!? 

Muitas vezes eu e meus irmãos apanhamos dos meus pais. Como toda criança, fazíamos as nossas artes, brigávamos na rua, algum vizinho ia lá em casa reclamar de vidros quebrados. Tínhamos plena consciência de que as surras faziam parte da educação, tanto que a Dona Terezinha sentava a régua no nosso coco e meus pais completavam o serviço, sempre que necessário. Porém, nenhuma surra doeu mais do que a que eu tomei por causa do boletim. Ela veio misturada com uma imensa vergonha pelo que eu tinha feito, só ficando evidente nas palavras do meu pai: 

- Hoje você vai apanhar dobrado, sabe por que? Falsificar assinatura é crime e dá cadeia. Então é melhor você apanhar de mim do que da polícia.

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