terça-feira, 28 de julho de 2015

Meu pai e seu jeito dolorido de ensinar boa caligrafia

Meus pais tiveram cinco filhos homens. Penso que a conta teria sido fechada antes, caso o terceiro fosse uma menina. Como o terceiro fui eu, melhor mesmo que todos foram homens. Tenho 1,90 m de altura, e mesmo que garotas não cresçam tanto eu teria enorme dificuldades para encontrar um namorado que não parecesse um chaveiro ao meu lado.

Para minha infelicidade meus irmãos mais velhos se tornaram donos de boa caligrafia, a exemplo do meu pai. Sempre achei que isso era um dom, ou seja, ou você nasce tendo letra bonita ou não. Não era a mesma opinião do meu pai, infelizmente. Na visão dele letra feia era sinônimo de desleixo, e portanto, algo que poderia ser corrigido com alguma técnica.

Para piorar, minha professora Terezinha partilhava da mesma crença, e fazia questão de fazer essa observação nas Reuniões de Pais e Mestres. 

- Que lástima - dizia ela -, se ele tivesse um pouco mais de incentivo poderia ter uma letra mais bonita, como a dos irmãos.

O "incentivo" empregado pelo meu pai foi bastante original, além de dolorido. Um belo dia ele me aparece em casa com um caderno de caligrafia, canetas e um exemplar do livro A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Me chamou para perto da mesa, antes do jantar, e disse: 

- Teus irmãos têm a letra bonita e só a tua que é feia. Isso é relaxo da tua parte, e se não for consertado cedo, mais tarde você vai passar vergonha. Aqui está um caderno de caligrafia, canetas e esse livro, que eu comprei. A partir de hoje, todos os dias você vai copiar dez páginas do livro nesse caderno. E vai ter que fazer uma letra bonita. Se eu chegar em casa e abrir o caderno e ver letra feia, você leva uma surra.

O beiço caiu, os olhos se encheram de lágrimas e a voz saiu, fininha:

- Pai, eu tenhu qui fazê lição di casa. Num vai dá tempo...

Ele, insensível ao meu desespero, retrucou: 

- Você copia o livro quando voltar da escola, e vai fazer a lição de casa depois do jantar. Uma coisa não atrapalha a outra. Toma, começa depois do jantar. E a história é bem bonita.

Meus irmãos devem ter achado o máximo. A cinta ia cantar no meu lombo, e muito bem feito. Quem mandou ser relaxado? Peguei meus objetos de tortura e fui me sentar num canto da mesa, fungando. Fiquei olhando a capa do livro durante um tempo. Mostrava um perneta com seu cachimbo e uma muleta na frente, e atrás dele ia um menino com cabelo de fogo, meio assustado. Gostei do papagaio no ombro do gordo e achei engraçado seu chapéu atravessado. Ao fundo tinha um navio, e eu logo pensei que era aonde eles iam botar o tal tesouro. Gostei do desenho.

Pelo canto do olho eu vi meu pai me observando, enquanto mastigava seu jantar. 

 -Possu escrevê meu nome nu livro? - perguntei, querendo aparentar interesse.

- Claro, ele é seu. E capricha na letra. - acrescentou, talvez para não me deixar esquecer qual era o propósito da coisa.

“Quinze homens na arca do morto, 
Aiou-ou-ou e uma garrafa de rum!”

Qualquer garoto de 9 anos se empolgaria com uma cantiga de marinheiros como essa e comigo não foi diferente. Assim que li essa parte, logo na primeira página, me empolguei e fui lendo. Ao virar a folha, meu pai me lembrou:

- Você esqueceu de copiar...

- Ah, é mesmo -, eu disse, e abrindo o caderno, peguei a caneta e comecei a desenhar meus garranchos no papel.

Eu nunca tinha pensado antes em que poderia ter uma letra melhor. Simplesmente aprendi a escrever com essa que tinha e estava bom. Para mim, o que importava era escrever certo as palavras, até para evitar levar uma reguada no cocoruto da professora Terezinha. Naquela noite descobri que ter letra bonita era uma questão de vida ou morte, ou sendo menos dramático, levar ou não uma surra.

Meu pai, diferentemente da minha mãe, tinha um jeito elegante de nos castigar. Prendia nossa cabeça entre os joelhos e dava duas ou três cintadas no nosso traseiro magro. Nada de gritos ou xingamentos. Mas doía à beça. Lembrar desse detalhe me animou a escrever demoradamente, caprichando nos garranchos, até porque não tinha prazo para acabar. Meia hora depois ele se levantou e veio ver meus progressos. Eu tinha copiado pouco mais da metade da página e me preparei para a sova, já que pra mim a letra estava a mesma coisinha feia de sempre. Ele apanhou o caderno, leu o escrito - ou tentou ler - botou o caderno de volta na mesa e disse:

- Começa amanhã.

Eu, todo alegrinho:

- Então possu ir brincar?

- Não, o castigo começa amanhã. Continua treinando até a hora de dormir.

No dia seguinte levei a primeira surra, e mais uma ou duas depois, mas passados uns dias já conseguia escrever coisas legíveis. No fim das contas acabei gostando demais do livro e escrever já não era mais um castigo. Não precisei copia-lo inteiro, já que minha letra adquiriu um aspecto que caiu no gosto do meu pai, mas mesmo assim terminei de ler o livro. Quando completei quatorze anos meu pai, vendo que eu gostava de desenhar, me matriculou na Escola Mecking, que ficava na esquina da Rua Bernardino de Campos com a General Glicério, em Santo André, para estudar Desenho Mecânico. Na primeira semana de aula o professor nos deu um caderno para aprendermos caligrafia técnica. Ao ver o que eu tinha escrito ele disse: 

- Parabéns, você tem uma letra bonita. Vai ser moleza.

Hoje agradeço de todo coração pelo empenho do meu pai em que eu tivesse letra bonita. Devo também a ele o gosto pela leitura, e com isso ter adquirido a capacidade de escrever textos razoavelmente bem. Meus filhos não precisaram apanhar por esse motivo, graças a Deus, pois ainda acredito que ter letra bonita é um dom.



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